O Branco tal como é


     Ás vezes penso que sou uma criança que ainda possui asas pequenas e raras. Que moro em um casulo sempre bem fechado, com sonhos guardados, com janelas entreabertas para ventilar um pouquinho de cheiro. Mas coisas assim não costumam acontecer, não comigo. Avistei, em sonho, um pequeno jardim, cuja fartura de flores ainda cobria todo aquele lençol. Um lençol que ouvi bagunçar as folhas de longe, muito branco. Aliás, foi a sua cor pura que meus olhos focaram-se. Quis me aproximar, aliás estava tão deslumbrada com ele, com tamanha brancura, tamanha doçura. O vento jogava os meus fios lisos para cima e para os lados, enquanto tentava andar fria no meio de tanta grama.

      Chegando mais ao longe, percebi que não era só sua cor que chamava a atenção de minhas pálpebras, que ao menos nem podiam mexer-se. Havia algo a mais que me fez levantar daquele sofá velho, todo rasgado, o qual estava lendo meu livro favorito, alguns favos de mel e tantos outros risos. Estava caminhando tão lentamente, talvez a ânsia de sentir o vento em minha pele fosse maior que a delicadeza do branco vibrante.

     Aproximando-me fui do tal visto, passos firmes, pele molhada de suor, um sol quente, um vestido de renda rosa bebê que havia me deixado mais branca que já sou, e descalça. Bem descalça. Dessas de não ter vergonha da sujeira pós caminhada e esquecer um pouco de ser tão delicada. Mas, gostaria de chegar o quanto antes, mas ainda assim não conseguia entender porque meus pés caminhavam tão lentamente em meio a tantos gravetinhos espinhentos. Pura criança estava sendo. Chegando mais perto, pude avistar que o lençol branco era também colorido, não consegui entender o motivo de apenas a cor branca chamar-me atenção. Não havia nada no lençol. Estava sujo, era colorido, aliás, com flores brancas, melhor dizendo, com rosas brancas, e no fundo do pano, havia um emaranhado de cores. Cores do céu, do arco-íris, da natureza. Cores minhas, cores imaginadas no livro que estava lendo, de novo.

     Olhei ao redor e nada. Nada parecia estar fora do lugar. Pássaros cantarolavam e voavam, nuvens carregadas de imagens me fizeram lembrar da infância, a folhagem rústica estava roçando o chão por causa da brisa, as árvores eram enormes e pareciam muito antigas com suas raízes bem atravessadas umas com as outras, ao lado havia algumas flores novinhas prestes a tornarem-se grandes flores, e o céu, como estavas lindo esse dia, um azul firme e leve, desses de querer tirar uma fotografia para ficar olhando depois.

     Ainda com aquela sensação de satisfação e um riso frouxo nos lábios, voltei andando calmamente para a casa de meus avós, para terminar o livro, o qual, estava quase terminando. Até hoje não entendi o motivo daquilo ter chamado tanto minha atenção, e por mais pressa que estava de encontrá-lo, não conseguia caminhar rápido, meus pés pareciam travados em meio a grandeza da cor. Talvez o que dizem sobre a cor branca, sobre a pureza, seja verdade. Aconteceu, sei disso.


POSTADO POR: CAMILA LACERDABLOG: CHÁ DE CALMILATEMA: CRÔNICAS/TEXTOS

2 comentários:

  1. Nossa que texto perfeito e está cor branca.
    Ai realmente está cor é pura e e me chama bastante a atenção :D

    Fil Rosa

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  2. Adoro a cor branca..Transmite paz...

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